Encontro com Djinho Barbosa na ACV

Encontro com Djinho Barbosa na ACV

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No passado 24 de maio de 2024, na Associação Caboverdeana, e no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Amílcar Cabral, o conceituado músico e professor Ângelo Barbosa, “Djinho”, fez uma brilhante apresentação das famigeradas figuras da Literatura, Música, Poesia e Política de Cabo Verde. De referir que Ângelo Barbosa natural de Assomada, Santa Catarina é, atualmente, Diretor do Instituto Pedro Pires de Estudos Cabo-verdianos na Universidade Estadual de Bridgewater. Nessa qualidade, tem vindo a promover uma relação mais próxima, vigorosa e sustentável entre a Bridgewater State University, Cabo Verde e a Diáspora Cabo-verdiana (Comunidade de Massachusetts).

A sessão começou num estilo intimista, transformado no espaço de convívio tertuliano, com a brilhante interpretação/declamação poética de Charles Mourão e José Luis Hopffer Almada.

Charlie Mourão e José Luís Hopffer Almada

Posteriormente, Djinho Barbosa começou por fazer uma inebriante apresentação do projeto Terreru, tendo destacado a figura do poeta e compositor Kaká Barbosa imortalizado nas suas obras literárias e musicais, do poeta kaoberdiano Dambara, (Felisberto Vieira Lopes) e do irreverente poeta Emanuel Braga Tavares, também conhecido como “Xanon ou Shannon”. Todos naturais de Assomada, Santa Catarina, na ilha de
Santiago.

O mote foi dado por Djinho Barbosa a partir da “rutura epistemológica” provocada por Katchás (Carlos Alberto Martins) entre as músicas mais apreciadas e acarinhadas pela elite colonial da época, mornas e coladeiras, e uma nova sonoridade musical trazida pelo FUNANÁ!

Djinho Barbosa

O Funaná assumiu, desde logo, um estilo demasiadamente eletrizante e telúrico, oriundo das raízes mais profundas de meio rural, da “terra bufa” e do “tchon di massapé”, tocado no terreiro, onde a figura do “Galo” representava o despertar para uma nova consciência moral através daquele estilo musical que, rapidamente, se tornou épico e levou Cabo Verde para os grandes palcos do mundo através do conjunto “Bulimundo”. Vivia-se uma nova conceção estética e musical nos ritmos, sons, letras, compassos e melodias que uniram corpos dançantes: desde crianças, adolescentes, jovens, menos jovens, adultos, etc.
A tradicional canção “Boas-Festas” popularizada por Luís Morais por ocasião do Natal e Ano Novo passou a conviver com ritmos e andamentos mais rápidos tocados por instrumentos tradicionais como gaita, ferro, faca, sobretudo pelas vibrações contagiantes dos acordes do “Bulimundo”: Djan Branco Djâ, Oh, Mundo ka Bu Caba, Batuco, Febri Funaná! DJinho deu exemplos vários através da reminiscência de alguns grupos musicais de que fez parte, desde logo, “Pó di Terra” e “Abel Djassy” e, mais tarde, a sua participação no grupo “Finaçom”.

Djinho Barbosa

Assim, e tendo sido recordado numa das obras do poeta e crítico literário José Luis Hopffer Almada, Djinho sentiu-se tocado e comovido, tendo invocado as alegorias inscritas na Obra de Camões, “Os Lusíadas” e as
Personagens residentes na “Assomada Noturna”. Nessa altura, introduziu novos elementos socioculturais e artísticos que fizeram parte da sã convivência entre os jovens do Planalto Central (Assomada, Santa Catarina), dos anos 60 e seguintes, tendo destacado o Cine-Teatro, o campo de futebol de Achada Riba, a Praça di Somada, o Mercado (Pelourinho), a magistral árvore de Poilão de Boa-Entrada, sem perder de vista as figuras daquela então Vila: Norberto Tavares, Gustavo Galina Monteiro, Caló Querido, autor da canção “Forti Trabalha pa Alguém), sem omitir uma personalidade do desporto (futebol), o Mulatinho.

Djinho Barbosa, consciente ou inconscientemente, traçou uma narrativa antropológica, histórica e filosófica que fez despertar na plateia uma reação comovente, a avaliar pelas intervenções havidas.

O próprio termo “Dambara” consubstanciado na primeira pessoa do poeta Felisberto Vieira Lopes fez eco na alma e no espírito dos presentes: ou seja, era urgente dizer “Dam Bara”, sub-repticiamente afirmado “Dêem-me a Vara” ou Nhoz dam “Varapau” para expulsar as figuras consideradas “persona non grata” do Fascismo e da Ditadura instaladas em Cabo Verde.

Muito obrigado, DJinho Barbosa.

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